O AMANHECER
    Estamos convencidos de que só com a construção de uma república federativa poderemos alcançar melhor distribuição da riqueza em país com as características do Brasil.
    Na república federativa, poderemos vencer o ciclo concentrador e de egoísmo das democracias liberais do estado moderno, agravado com a globalização econômica. Como acentua Mangabeira Unger, precisamos encontrar alento para a construção da sociedade mais justa.
    As teorias sociais modernas criaram conceitos de uma sociedade em que o “determinismo histórico” levava à inexorável “luta de classes”, onde os pobres (trabalhadores) tinham que ser e lutar contra os ricos (patrões). Só o conflito poderia criar uma nova e mais justa realidade. Buscaram e se inspiraram na genialidade de Thomas Hobbes, com seu Leviatã, que coloca “o homem como lobo do homem”.
    Encontraram em Nietzche o niilismo que precisavam, com a negação de tudo, até de Deus, e se satisfizeram com a constatação da realidade e acomodação no “status quo” do admirável gênio de Maquiavel, que retratou com absoluta perspicácia tudo como era, mas não quis indagar como deveria ser. Contentou-se com as trevas, sem se preocupar com a luz.
    As teorias sociais desse período concentraram-se na face obscura e selvagem do ser humano, como se esta fosse o todo de todos os homens.
    A outra face, encontrada nas propostas da Revolução Francesa, não vingou. A solidariedade, a fraternidade e a igualdade não foram ouvidas pelas teorias sociais, que só encontraram no ser humano o obscurantismo. Não consideraram que existem,sim, os filhos das trevas, mas, também, os filhos da luz, sufocados pelas doutrinas da competição. Não deixaram nascer o novo dia com o argumento de que a noite era tudo, era eterna.
    O lucro, tão combatido por algumas doutrinas, inclusive, apresentado como o único motor para o desenvolvimento e patrono da incrível exploração de uns (poucos) sobre outros (muitos), na exacerbação do capitalismo “selvagem”, passou a ser suave diante da forma mais devastadora em que se apresenta como juros.
    No monetarismo reinante, a mercadoria que dá mais lucro é o próprio dinheiro, através dos juros, que acabam com o interesse na produção de mercadorias úteis, pois a mercadoria que dá mais lucro é o dinheiro, em si. Quem tem o capital não precisa produzir coisa alguma. Isto é o produto mais acabado da globalização econômica, em que nem mesmo moeda se usa. O mercado se movimenta em tempo real nas telas eletrônicas, impulsionado pela ganância, a exploração e o egoísmo. Nada se vende, nada se compra, nada se produz. A penas se joga no grande cassino universal. Nesse modelo, o “homem é lobo do homem” como nunca antes.
    Agora, bem recente, parece o despertar de nova era. Muitos homens e mulheres, no mundo inteiro, têm procurado o amanhecer. Estão denunciando a globalização econômica, filha dessa doutrina social do obscurantismo, como alguma coisa à qual se pode apresentar alternativas mais humanas. Muitos pensadores, políticos, sociólogos, filósofos vêm desafiando a inexorável formação do império; da sociedade 20 por 80, do neoliberalismo. 20, dono de tudo, por 80, dono de nada, nem mesmo da possibilidade de viver. Também o Fórum Social Mundial tem proporcionado séria discussão; a criação da taxa Tobin, ou coisa parecida, já é defendida por muita “gente importante”.
    A outra face, a que vê no homem o humano, o irmão que pode praticar a solidariedade, a face que busca a racionalidade, a que acredita em princípios morais e éticos nas relações sociais, esta precisa ser despertada do enorme sono para ver “o dia vencer a noite em seu reduto”.