O Papa
    O Papa é conservador ou é progressista? É radical? Ou é relativo? É duro? Ou é mole? É pastor alemão? Ou é pastor de ovelhas? Vai dar continuidade na linha de gestão do pontificado imediatamente anterior? Ou vai mudar a linha de ação?
    As pessoas que se perdem nessas indagações não têm idéia do que é ser Papa. Não consideram que o Papa é único, universal, diferente de todos os outros homens. Ele é tudo isso e não é nada disso.
    Como cidadão, criança, jovem, estudante, padre, bispo, cardeal, como Joseph Ratzinger, ele pode ter sido, alternativamente, uma coisa ou outra das indagações aqui colocadas. Como Bento XVI, ele é Papa, e acabou!... Vai ser ao mesmo tempo conservador e progressista, radical e relativista. Vai ser duro, às vezes, e mole em outras oportunidades. Vai ser pastor. Não é mais alemão. O Papa não tem nacionalidade. Alemão era Joseph Ratzinger. Bento XVI pertence ao mundo, é conterrâneo de todos os católicos. É guia para a humanidade.
    Não é possível, é uma pobreza de espírito ficar julgando o Papa pelo que ele foi antes de ser Papa. Joseph Ratzinger foi uma pessoa, Bento XVI é outra. Todos os papas da história surpreenderam os analistas apressados quando começaram a agir como Papa. O homem que se torna Papa nasce outra vez. Sempre foi assim e assim será. É nisso que acredito.
    Não se trata de crença religiosa, embora possa ser também sob esse aspecto. Mas, aqui, não é. Penso filosófica e sociologicamente. Há nesta minha interpretação muito de místico, de simbólico, no que o ser humano tem disso, não como crente religioso, mas como conteúdo humano. Dentro da compreensão de que “ tudo que é sólido desmancha no ar”.
    Pertencesse a qualquer religião, a qualquer instituição ou entidade de âmbito universal, a pessoa que chegasse à condição equivalente à do Papa, com a história milenar, com as características de singularidade, de unidade, de universalidade, de repercussão e de consciência da importância mundial de seus atos, sofreria, a meu ver, filosófica e sociologicamente, a mesma metamorfose que ocorre com o Papa.
    Todo ser humano sofre mudanças no seu comportamento no correr da vida, principalmente quando ocupa diferentes funções na sociedade. O “amadurecimento” é uma realidade. Quantos conhecemos na história que, mais que mudaram, sofreram verdadeiras transformações em suas posições sobre vários assuntos, ao assumirem responsabilidades diferentes em suas vidas? O homem, “ele e suas circunstâncias”, na reiteradamente utilizada expressão de Ortega y Gasset.
    A instituição Papa tem um simbolismo singular e milenar, que se fixou na consciência universal através, inclusive, das vicissitudes e contradições da própria Igreja no decorrer de tão longa história. O simbólico e o místico, mesmo sem religião, é o que mais pesa na vida do ser humano. O transcendente é mais forte que o imanente. O forte da religião é exercitar o que é mais forte na vida de qualquer cidadão.
    A própria ciência, na busca do novo, está a se desmentir a cada instante. A religião que queira acompanhar a modernidade das ciências perderá imediatamente seu encanto. O moderno é, pela própria natureza, efêmero. Os princípios de qualquer igreja, como da filosofia, precisam ser duradouros para serem acatados e respeitados.
    O Papa, mais que qualquer outro, perde muito de sua individualidade. As circunstâncias que o rodeiam são muito mais fortes do que as de qualquer outra pessoa.