Os franceses e a UE
    Pareceu-me alentador o alerta dos franceses neste fim de semana rejeitando a Constituição da União Européia sob a principal motivação de que ela tem fundamentos, quase que exclusivamente, econômicos. Visa o mercado acima de tudo. É bom que os arautos da globalização, ou da mundialização conforme preferem os franceses, percebam que nem tudo está entregue ao seu sabor. Os franceses disseram não à União econômica que só visa os interesses do mercado internacional. Perceberam que atrás dessa unificação está a ganância de grandes grupos econômicos que têm como objetivo a cada vez maior concentração da riqueza. Não há nada de nobre nestas propostas imperiais.
    E, é bom considerar também, que essa posição dos franceses cresce de importância na medida em que se tratava do apoio francês para a Constituição do bloco europeu. Era de se imaginar que os franceses desejassem liderar este bloco numa disputa mercadológica com o império norte americano. Nem essa condição tão envolvente aos europeus serviu para alterar o ânimo dos franceses. A globalização econômica, essa que concentra a renda e produz desigualdades e miséria, felizmente, tem inimigos, e inimigos fortes.
    A França, como líder histórica da Europa, ao rejeitar a Constituição da EU, dá ao mundo, mais uma vez, uma lição de autonomia e independência. Mostra saber distinguir a diferença entre a globalização econômica e a universalização dos avanços científicos e tecnológicos, estes do interesse de toda a humanidade.
    A lei do mercado globalizado, apesar dos incríveis esforços do capital internacional, encontra sérias resistências dos povos que têm consciência de sua soberania. Não é um crime consumado. O fim das fronteiras nacionais não está tão próximo como gostariam os mercantilistas. Mesmo num bloco de tantas afinidades, com tais e quais características comuns, como o europeu, encontra entraves muito conseqüentes como esta histórica decisão do povo francês.
    Se estendermos o olhar para a Ásia, a África, a América Latina, aí então é que poderemos verificar que cada um quer e precisa manter suas diferenças culturais na construção da fortaleza da humanidade. Não é tentando fazer iguais os desiguais que se chega à justiça. O mercado não cuida da humanidade, cuida do lucro dos poucos grupos que o sustentam. Os franceses mostraram saber disso.