ACREDITEM, NÃO É O FIM DA HISTÓRIA!
    Estou “aposentado” depois de 39 anos de mandatos eletivos. Comecei como Vereador, depois Deputado Estadual, Deputado Federal ( três mandatos), Prefeito (três mandatos). No meio desses mandatos, alguns cargos executivos menos importantes, porque não eletivos.
    Sou, hoje, um homem realizado, principalmente porque não aumentei meu patrimônio material. Sou tão pobre como quando comecei. Se não tive outras qualidades relevantes, mantive a integridade moral. Nunca me afastei da lei moral que Kant expressa em seu imperativo categórico: “mais importante que ser feliz é ser digno da felicidade”.
    Nunca me encantei por bens materiais. Sempre quis apenas aquilo que me proporcionasse uma vida modesta e digna. Também, nunca me envolveu a opulência. Não gosto do lixo e repudio o luxo. Sempre fiquei feliz em dar à minha família condições de viver com o essencial. Nada de exagero.
    Agora, volto-me à atividade profissional como advogado. Contudo, meu espírito público move-me para além disso. Não me aquieto diante das questões nacionais. Com a experiência que adquiri, não me sinto com o direito de passar ao largo dos problemas da nossa complexa política. Também não me toca ocupar cargos públicos por delegação de qualquer governante.
    Hoje, além da atividade profissional que me empolga, estou motivado a trabalhar com uma equipe de pensadores e articuladores que busque a elaboração de um projeto para a construção da república federativa brasileira.
    Nossa história e nossa cultura não favorecem o real pacto federativo. Somos filhos do autoritarismo, do colonialismo, das sesmarias, da escravidão, do presidencialismo centralizador. Daí, as enormes dificuldades para a prática da república federativa. Por outro lado, as características nacionais como extensão continental e heterogeneidades regionais exigem uma república federativa real para o efetivo desenvolvimento e para a estabilidade democrática. Os passos da democracia só serão seguros e perenes numa república federativa. O que temos é um arremedo. Elevou-se o município a ente federativo na Constituição de 88, mas isto só ocorreu no papel, no texto constitucional.
    Sem república federativa para valer, a vida republicana é uma farsa.
    Entretanto, a rotina da mediocridade, o ciclo da antipolítica, do fim do pouco que sempre tivemos de partidos, do individualismo acentuado, da prevalência da indigência e do paupérrimo, não é favorável a aventuras e a utopias.
    Compreendo isso tudo, mas penso que há de se procurar a verdade e o perfeito, mesmo no “estado imperfeito”, conforme reflete Spinoza. Há que se resistir a esse ciclo desanimador para encurtarmos sua duração e seus perniciosos efeitos.
    A perfeita compreensão das dificuldades impostas pela realidade; o atual estágio da sociedade brasileira tão adverso à busca das coisas do espírito; a pobreza da hora; o avanço da degradação dos costumes políticos, nada disso pode nos impedir de procurar o caminho certo. Há sempre os que optam por esta caminhada. E é o número não é tão pequeno. O que falta é a organização da caravana. Muitos estão dispersos e perdidos porque não conseguem se organizar, e aí se quedam no desânimo.
    A imensa potencialidade deste magnífico País nos impõe o compromisso de buscar a melhoria de sua classe dominante, a pior coisa que existe aqui. Esta classe dominante, os governantes, historicamente, engana e frustra o bom, ativo e versátil povo brasileiro.
    Os partidos são cartoriais e só servem para apresentar aos eleitores alternativas falsas. O eleitorado, movido pelo poder econômico nas campanhas, é chamado para se manifestar em alternativas mentirosas, que nascem dos conchavos das cúpulas cartoriais dos partidos. Muitas vezes, os candidatos naturalmente preferidos pelos eleitores não conseguem vencer a barreira partidária e não são submetidos à escolha popular.
    Por tudo isso, é preciso que se discuta a construção da república federativa. Observe-se que começo por utilizar o conceito construção. Não falo de reconstrução, muito menos de repactuação do pacto federativo. Há que se elaborar um projeto que estabeleça uma profunda mudança de paradigmas. Na verdade, a construção de uma república federativa.
    A história e a cultura do Brasil mostram de maneira flagrante que nunca operamos uma república federativa. Nossa origem – já destacamos acima - é de profunda centralização. Jamais conseguimos alcançar a tão decantada república federativa.
    Para a construção dessa república federativa, é fundamental que se busque o estabelecimento de atribuições e competências dos entes federativos de maneira bem clara; mas, além disso, que se estabeleça a origem do financiamento para as tarefas definidas. Cada ente federativo precisa participar do bolo tributário segundo suas funções.
    A construção da república federativa, a descentralização, não quer dizer, simplesmente, mais recursos para os municípios. Não, há casos dos municípios estarem recebendo recursos maiores que os necessários para determinada atribuição e, por outro lado, assumido atribuições para as quais não tem receita para seu financiamento. Daí, a conclusão de que é urgente a definição clara das competências, independente dos recursos a que tem direito.