SANTO OFÍCIO
    Recuperando-me de uma cirurgia de atleta, no menisco do joelho direito, prostrei-me diante da TV e assisti integralmente ao depoimento da Sra. Renilda de Souza, esposa do Sr. Marcos Valério, maior envolvido nas apurações de irregularidades promovidas pela CPMI dos Correios. Foi um quadro dantesco. Não desejo fazer o julgamento a priori como o fez a imensa maioria dos parlamentares interrogantes. A depoente deixava transparecer seu parcial envolvimento nos fatos delituosos. Estou convencido de que ela tem sua culpa! Estava amparada por decisão liminar do STF, no sentido de que não precisava se auto-incriminar. Até aí, tudo certo. O tratamento do Presidente da CPMI e o interrogatório do Relator, perfeitos e civilizados. Mais duas ou três intervenções competentes e sóbrias. A depoente respondendo com atenção o que lhe convinha. Para início de conversa, entendo que a apuração deve ser dura, enérgica e conseqüente.
    Daí em diante - aqui está a questão que desejo enfatizar - vimos, na transmissão ao vivo pela TV, a mais grotesca exposição da fogueira das vaidades. Só discursos verborrágicos, numa expressa manifestação de sadismo. Da metade do depoimento em diante, com a depoente já muito fragilizada, a arena dos leões virou uma grande e funesta festa medieval. Cada interrogante passou a fazer suas perguntas e, quando as fazia, as mesmas, repetidas vezes, já dava a resposta, e queria forçar a depoente a confirmar o que ele havia afirmado. Inquisidores impiedosos, queriam arrancar a confissão das entranhas da depoente. Chegaram ao limite da irracionalidade. Nunca vi sessão de linchamento moral tão violento transmitida ao vivo pela TV . Igual só no cinema.
    Como advogado criminalista, participando de duros inquéritos, formação de culpa e julgamento, inclusive em Tribunais Militares no período autoritário, nas décadas de 60 e 70, jamais vi tanto desrespeito à pessoa humana, tanta agressão gratuita, tanta falta de urbanidade com um depoente, por mais envolvido que ele estivesse e por mais hediondo que fosse o crime investigado. A execração a que foi submetida a depoente Renilda de Souza constitui uma página negra de nossa história parlamentar. Foi triste. Nunca imaginei haver tantos “urubus” famintos entre nossos representantes no Congresso Nacional. Pensava eu ser esta uma especificidade da mídia, esquecido que estava do fato de que a mídia livre é outra expressão de Poder.
    Afinal, a arrogância, a soberba, a vaidade, o egoísmo, o sadismo, o narcisismo são perversidades da natureza humana. São verdadeiros vírus a corroer a saúde do organismo social, muito comuns nos que exercem o Poder (governo, mídia etc.), salvo exceção dos poucos que carregam na alma a impassibilidade de um Catão. Admito que, ao emitir os juízos aqui expostos, tenha, involuntariamente, praticado algumas dessas mazelas.
    Ao utilizar a expressão “fogueira” das vaidades, lembrei-me, também, do Santo Ofício da inquisição medieval. Nunca vi tanto Tomás de Torquemada. Fazia pena o massacre sobre a depoente que, ao final, se quedou em lágrimas diante daquela ganância de desesperados.
Senti-me diminuído como ser humano de um mundo que eu achava civilizado.