SEMPRE HOUVE
    Se a bandalheira que, agora, vem a público, com as denúncias e apurações de toda espécie, já foi maior ou menor do que hoje, ninguém tem condições de afirmar. Mas, que ela sempre houve, não há a menor dúvida. Os oportunistas e aproveitadores, os traficantes de influência, os “lobistas” corruptos, sempre existiram, e encontraram gestores públicos ávidos de serem corrompidos. Não há quem tenha exercido mandato ou cargo público, com seriedade e zelo, que não tenha vivido o constrangimento de rechaçar, com energia, com as palavras basta ou chega a esses profissionais do trambique. Eles vivem, há muito tempo, locupletando-se dos recursos públicos. Habitam esse submundo da miséria moral, da fraqueza de caráter e temperamento, do farrapo humano e, ao mesmo tempo, da enorme e podre fortuna material, à custa do sofrimento de milhões de pessoas, seres humanos que deveriam ser seus semelhantes.
    Corruptores (agentes ativos) e corrompidos (agentes passivos) formam a mais ardilosa e insidiosa parceria contra a moralidade administrativa. É uma “fábrica” insaciável de negócios sujos. Constitui crime difícil de ser descoberto e investigado, porque os “ladrões” são parceiros, e a vítima, no caso, o Estado, está representada por um deles. Fica um criminoso, o corrompido, acobertando o crime do outro, o corruptor.
    Este problema da quebra dos sigilos – bancário, fiscal, telefônico, o “escambau”, seja que sigilo for, menos o domiciliar, deveria ser condição para a posse de qualquer mandatário ou gestor público. Homem (ou mulher) público não pode ter esses tais sigilos. O próprio nome indica: é público!.. ou não é público ?....
    Ninguém sabe quando houve mais corrupção, tráfego de influência etc., se agora, que se apura, ou quando não se apurou. Quem pode dizer que todos os casos estão sendo investigados? Quantos nunca foram apurados ?... Sabemos que vivemos nestes dias um enorme frenesi denuncista e investigativo. Virou febre altíssima.
    Constitui maniqueísmo que não contribui com as apurações, o comportamento das representações políticas ao tomarem posições partidárias, cada uma querendo atribuir a outra o maior envolvimento nos delitos. Os detentores do Poder de ontem querem jogar a culpa toda nos governantes de hoje, e os atuais titulares do Poder querem e desejam alcançar os antecessores. Isto leva a lugar nenhum, mesmo porque esses degenerados estão em todos os partidos e todos os governos. O fundamental, o importante, o louvável, é ter quem os possa combater ontem, hoje e sempre. Infelizmente, não é possível uma sociedade, muito menos governantes, todos honestos, corretos, incorruptíveis. O que é necessário, e não é tão fácil, é se apresentar para o desconforto de apurar e combater esses crimes, aqueles que, embora honrados, se disponham a se meter na “lama” para buscar os “porcos” enlameados. Para um homem probo não é fácil o papel inquisitório. Todavia, não há outro caminho, os do bem têm que se dispor a enfrentar os do mal para vencê-los em seu reduto. A sociedade, em todos os seus segmentos, pode ser melhor. E será!...
    Na história, já prevê a bíblia, há períodos de “vacas magras” e períodos de “Vacas gordas”. Serão mesmo de sete anos?...Estaríamos vivendo outro momento histórico como o de Sodoma e Gomorra? Os valores morais e éticos estão enfermos, gravemente abalados?
    Temos preferido ficar com os que entendem que o momento não é pobre, é rico. É tempo de investigações e apurações de crimes de uma espécie que sempre existiu, acobertados, soturnos. Parece que estamos purgando o estado brasileiro de males muito antigos. O que precisamos é ter cautela para não transformar esse processo numa desabrida e fanática prática de “caça às bruxas” e mútua perseguição político-partidária. A imprensa nessa hora sempre se apresenta como “salvadora da pátria” e dona da verdade. Utilizando o fundamental direito de ser livre, muitas vezes, sem maldade, cai na esparrela do ultra-realismo e, sem condições e técnica de apuração, condena muita gente, com denuncismo público, antes de qualquer investigação mais criteriosa. Não se pode admitir qualquer ato de censura, mas a imprensa responsável deve manter-se sempre em auto-censura.
    Com liberdade e cautela, podemos promover a depuração de nossos costumes. E nunca é tarde para esperar o tempo de “vacas gordas”, quando a primavera chegar.