Último Republicano
    Com a morte de Miguel Arraes neste sábado, 13.08.05, desaparece da vida terrena o último republicano do século XX, com atuação destacada na política nacional da metade desse século até nossos dias. Tendo vivido e atuado naquele período tumultuado da vida brasileira, alguns republicanos dignos dessa qualificação se destacaram pelos seus reconhecidos espíritos públicos, independentemente de suas posições ideológicas. Foram vítimas da violência do autoritarismo imposto contra o povo e seus autênticos e exemplares líderes. Eram homens públicos maiúsculos, verdadeiros republicanos, que nos advertem, com o exemplo de suas vidas, quando nos sentimos carentes de líderes daquela estirpe.
    Até onde posso recordar, Miguel Arraes era o último desses bons exemplares. Os outros partiram antes. Milton Campos, Tancredo Neves, Juscelino Kubitscheck, Luiz Carlos Prestes, Franco Montoro, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas.
    É de nos fazer parar para meditar. Esses homens que foram vítimas do arbítrio, punidos como apátridas alguns deles, cassados, presos, exilados, hoje, na perspectiva histórica, têm que ser reconhecidos como idealistas, Políticos com P grande, que tiveram, inquestionavelmente, compromisso com a res publica. Homens que jamais pensaram em vantagem pessoal. Imaginem alguns desses nomes envolvidos em “maracutaias”.O próprio JK, construtor de Brasília, tão atacado na época pela “banda da UDN”, morreu pobre, com patrimônio tão pequeno que surpreendeu aos detratores pela insignificância da herança de um ex-presidente da República poderoso, que realizou obra grandiosa.
    Esses tinham o espírito público de reais republicanos. Deles tiro um exemplo do que posso testemunhar, convencido de que é aplicável, nestes dias de tanta dúvida, sobre a ética na política. Encontrava-me bem ao lado de Ulysses Guimarães na sua sala de Presidente do PMDB, na noite que antecedeu à posse de Sarney na Presidência da República, início de 1985. Todos estávamos perplexos com a doença e a internação súbitas de Tancredo Neves, o eleito Presidente, no início daquela noite. Véspera da posse, nosso Presidente não poderia assumir.
    Reuníamos todos ali no correr da noite, posse marcada para as dez horas do dia seguinte. É notório o desejo do Dr. Ulysses de ser Presidente. Havia, inclusive, disputado com Tancredo o direito de ser o candidato perante o colégio eleitoral. Cedeu a indicação ao companheiro, entendendo que este teria melhor chance eleitoral nas condições então vigentes.
    Na medida em que as horas iam passando, chegavam políticos aquele local. Senadores, Deputados, lideranças partidárias, além de representantes da imprensa. Em pouco tempo, estavam ali mais de setenta pessoas. A discussão se alongou, e formou-se logo grave polêmica sobre quem deveria assumir a Presidência algumas horas depois. Dr. Ulysses assentado por detrás de sua mesa de trabalho no fundo da sala. Todos os outros de pé. Ele com os cotovelos sobre a mesa sustentava o queixo com as mãos, acompanhava o entra e sai dos companheiros e o acalorado debate sobre a quem cabia o direito de posse, o vice eleito com Tancredo, Sarney, ou o Presidente do Congresso, Ulysses. Havia juristas consagrados sustentando ambas as posições. Já pela madrugada surge um emissário do Planalto com um recado: o Presidente militar comunicava que só passaria a faixa presidencial ao Dr. Ulysses. Este, impassível, na mesma posição há horas. Não saí um só instante do lado dele.
    Pois bem, amigos, aquele homem que tinha desejo claro de ser Presidente, quase uma obsessão, com a faixa presidencial no peito, sem qualquer contestação conseqüente, levanta-se da sua cadeira, lá pelas três horas da manhã, e encerra aquela reunião informal e importantíssima, batendo forte na mesa e decidindo com voz grave: “amigos, companheiros, não podemos sair do golpe dando golpe. Quem, constitucionalmente, deve assumir é o vice Sarney. Vamos embora para estarmos aqui às dez horas para a posse”.Todos se retiraram em silêncio, não houve quem pudesse apresentar qualquer contestação. Muitos saíram frustrados, eu, além do mais, estava feliz porque fazia a mesma interpretação do texto constitucional sustentada pelo Dr. Ulysses. Esta foi a mais desprendida atitude republicana que presenciei. Relembrá-la, aqui e agora, parece-me ser justa homenagem ao último desses republicanos, Miguel Arraes.