CULTURA IMPERIALISTA

         É certo – e nos parece que realmente é certo – que o governo da Bolívia não poderia, segundo as regras internacionais, expropriar, da maneira como o fez, uma empresa estrangeira que operava em seu país, há anos. Se Evo Morales, a título de defender as riquezas naturais do país, cometeu grave violência contra uma empresa estatal de um país vizinho e parceiro, isto não pode nos conduzir a praticar erro do mesmo nível.

         O Brasil, mais desenvolvido e mais maduro nas relações internacionaias, precisava agir de maneira competente e diplomática. A nosso ver, é o que está acontecendo.

         Temos visto, na grande mídia, e em articulistas consagrados, um verdadeiro clamor imperialista. Pedem, com enorme estardalhaço, atitudes mais enérgicas do Governo brasileiro. Mas, o que querem ? O que se pode fazer, em casos como este, sem que seja o diálogo civilizado, inclusive, com a intermediação de outros países vizinhos? Em momento nenhum ouvi alguém dizer em abrir mão de direitos. O que se quer é buscá-los através do diálogo, utilizando-se os princípios do Direito Internacional. Ou seria o caso de invadir a Bolívia, seguindo a “sabedoria” de Bush ?

         Algumas dúvidas sobre a exploração do gás na Bolívia: qual é realmente o preço do gás no mercado internacional? A Petrobrás grande multinacional brasileira, do maior e mais importante país da América do Sul, estará pagando preço justo pela extração da maior riqueza do mais pobre país do subcontinente ? Ou, estará, na chamada economia de mercado, explorando nossos irmãos bolivianos, assim como acontece conosco por tantas multinacionais do primeiro mundo ? Quem sabe, a Petrobrás pode pagar um pouco mais, sem prejuízo para o Brasil ? Não seria possível reduzir um pouco os lucros, em benefício de um povo tão pobre ? São perguntas que gostaríamos de ver respondidas. Certamente, não é com atitudes unilaterais expropriatórias como a de Evo Morales, nem com rompimento de contratos, que se resolverá a questão. Embora equivocado, a nosso ver, Evo Morales nada mais está fazendo do que cumprir seu compromisso de campanha eleitoral. Então, a decisão não é pessoal, é da maioria do povo boliviano que o elegeu.

         Outro ponto que está a merecer melhor reflexão: afirma a mentalidade imperialista que a questão não é política, é econômica. A tão decantada “economia de mercado” não quer saber da felicidade das pessoas, só está interessada nos lucros de seus operadores. Pois bem, entendemos  que em casos como este do gás da Bolívia, a decisão é, predominantemente, política. Envolve as relações entre dois países vizinhos e amigos, de um bloco de nações que precisam se unir na América do Sul.

         Na verdade, a dependência é muito maior da Bolívia em relação ao Brasil. Eles têm gás como a maior riqueza de seu subsolo, mas precisam vender este gás sob pena dele nada lhes valer. Não têm condições econômicas para explorá-lo, nem consumo interno dessa energia para absorvê-la, nem tampouco, meio de transportá-la para outro comprador que não seja o Brasil. Resumo: está nas nossas mãos. O que não podemos, é com uma mentalidade imperialista e chantagista, procurar subjugar o mais pobre país vizinho.

         O diálogo entre as partes, e com a intermediação de outros parceiros, é o único caminho para uma solução civilizada, aqui, ou em qualquer parte do Globo. Não se resolvem questões como esta com bravatas imperialistas, e, sim, com a utilização dos meios legais nos tribunais próprios para esse fim. Não se abre mão de qualquer direito. O que não pode  acontecer é o uso da força e da opressão do mais poderoso sobre o mais fraco.

         Estamos dando um bom exemplo.          

(Artigo publicado no jornal Tribuna de Minas, de 10 de maio de 2006.