PIRATARIA MODERNA

 

         Os corsários de nossos dias estão em todos os mares do mundo, navegam pela internet e saqueiam todas as nações, que se vêem obrigadas a resgatar os povos saqueados. São piratas quase invisíveis ancorados em of-shore espalhados por todos os lados, fora de qualquer controle, e que, na frente de um computador em conexão global, especulam sem qualquer risco para si, sobre a sorte de todos os povos do planeta.

         Afirmam, com incrível arrogância em cartilhas muito bem pagas, que a globalização econômica baseada na liberdade absoluta é fato consumado, impõem o pensamento único de que as fronteiras nacionais foram rompidas e que os estados (nações) nada podem fazer para evitar o esbulho de seu povo. Alardeiam a necessidade do afastamento do estado e da primazia do mercado no processo econômico. Reclamam orquestralmente da carga tributária e dos excessivos gastos públicos. É preciso destruir qualquer veleidade de controle estatal sobre suas atividades, dizem os neoliberais, digo eu, sobre suas piratarias.

         O sistema que defendem é para entrar em crise de quinze em quinze anos. Ficam todo esse tempo jogando no cassino global, praticando todo tipo de loucura financeira, e periodicamente, chamam o estado, que condenam, para arcar com suas orgias, com dinheiro do povo. Este, leniente no controle mais rígido e rigoroso sobre a ação dos corsários financeiros, se vêem obrigados a “socorrer” o sistema, com recursos que deveriam ser aplicados na educação, na saúde, no saneamento, na oferta de empregos, na busca de bem-estar social. Na hora do “socorro”, os estados (nações) “que já não existem”, são chamados para cobrir os desatinos. Os pobres do mundo inteiro vêem os recursos que deveriam se destinar a fazê-los mais felizes, serem garantidores das grandes orgias financeiras dos muito ricos.

         Formadas “pelos mesmos”, funcionam as agências de consultorias de investimentos, como a prestigiada Moody’s Investors Service, que atribuem, ao seu livre talante, graus de confiabilidade a todas nações do mundo. Induzem os investimentos ao seu bel prazer para seus parceiros que sejam mais dóceis, e prejudicam os que não rezarem pela sua cartilha.

         Os defensores do neoliberalismo radical chegam a sofismar cinicamente afirmando que, no momento da crise, os estados devem intervir para sanear, depois precisam devolver outra vez aos especuladores. Têm coragem de citar como exemplo o caso da Inglaterra, que privatizou tudo a partir de Margaret Thatcher, e agora, são obrigados a estatizar. E dizem: a intervenção estatal é só para sanear, depois privatizam outra vez. Reconhecem que é preciso tirar a raposa do galinheiro para que se salvem as galinhas que sobraram, contudo querem que quando as galinhas estejam gordas e recriando se volte com a raposa para o seu banquete.

         Até a Suécia de longa história nos avanços no bem-estar social vem sofrendo grandes desgastes coma a globalização. A crise de l995, iniciada no México, causou grandes transtornos para boa parte do mundo. O sistema neoliberal vigente é uma sucessão de crises. Àquela altura, até mesmo o então Presidente de FMI, Michel Camdessus, escandalizado com o “socorro” dado aos especuladores, afirmou: “O mundo está nas mãos desses tipos”. E o professor de economia da Universidade de Cambridge, Willem Buiter, enfaticamente declarou que teria sido “um presente dos contribuintes aos ricos”.

Esperamos que da crise atual, tão grave, nasça a luz. Aliás, as melhores soluções quase sempre são filhas das crises. Não enxergamos, modestamente, outro caminho que não seja a forte, rígida e rigorosa intervenção dos estados democráticos na defesa de seus povos. Ou os governantes democráticos tomam a si as rédeas e o controle da economia, regulando a ação dos agentes privados, ou continuaremos nas mãos dos corsários da economia mundial.