Bom e Difícil
    O Brasil é um país bom e difícil. O povo brasileiro é um povo bom e difícil. Tudo aqui é grande e complexo. Este verdadeiro continente heterogêneo, cheio de igualdades e desigualdades. Gigante pela sua própria natureza, aqui nestas Américas atlânticas, banhado por mares infinitos, águas que chegam em praias de areias finas e alvas, sempre repletas de loiras e morenas lindas. Às vezes, justo; muitas outras, profundamente injusto. Uma população imensa, das maiores do mundo, mesclada de várias origens. Povo desconfiado e esperto, gente rude, ainda silvestre, poucos, e gente muito criativa, extremamente astuta e ardilosa, a grande maioria.
    Alguns vivendo todas as vantagens e desvantagens da aldeia global. Estes estão aqui como se estivessem em qualquer parte da terra no mundo mais desenvolvido. São contemporâneos da pós-modernidade. Todavia, a imensa maioria convive no mesmo espaço, colocada de costas para esse futuro. Esta camada maior está pagando muito caro pelo elevado custo da globalização neoliberal. Um país, com estas características do Brasil, não pode suportar o peso da imensa carga da disciplina e do bom comportamento que a ortodoxia neoliberal lhe impõe, através dos seus instrumentos e organismos supranacionais. É necessário se ter coragem para outro grito de independência. Dentro da regra do jogo não há saída. Todo esforço da Nação se esvai no pagamento de juros, juros sobre juros. Quanto mais se paga, mais se deve. Desta ciranda ninguém se salva. Todo esforço é vão.
    Além desse quadro desfavorável, em si já insuportável, permanece com toda força e em formas, cada dia, mais ardilosas, aquilo que sempre foi forte e destacado nestas gentes americanas deste lado do atlântico: a vocação firme para a corrupção, o golpe, o desvio, o apego às coisas do alheio, a ambição desmedida de camada considerável destas gentes tão generosas em tantos momentos.
    Estamos vivendo agora, nestes dias, um momento desalentador, principalmente pelas suas lamentáveis repercussões histórias.
    Em espaço relativamente curto de anos, bem nosso contemporâneo, o fato se repete, envolvendo o Governo Federal, tanto no Executivo quanto no Legislativo. Acontece que, no início da década de 90, os articuladores do assalto contra o erário federal, não tinham história. Era mesmo aventureiro que, aproveitando-se de um período histórico, logo depois do autoritarismo, chegaram ao Poder através de fenomenal engodo eleitoral, para cometerem todo tipo de falcatruas.
    A Nação reagiu admiravelmente. As instituições adolescentes mostraram-se fortes. Resistiram bem e, legalmente; os assaltantes foram colocados para fora. Muitos foram cassados e o Presidente da quadrilha foi impedido de continuar.
    Agora, meus amigos, a coisa é diferente e muito pior. Pouco mais de uma década foi passada e aqueles que se vangloriavam de serem os grandes artífices da limpeza na sujeira anterior, são pegos “com a mão na massa”, fazendo coisas que “até Deus duvida”. O assalto é maior e muito mais ardiloso. E seus autores principais foram os mesmos que construíram o “Partido da Esperança”. Que desgraça!... Muito ruim para o Brasil, altamente comprometedor das instituições. Como fazer acreditar outra vez aqueles que acreditaram tanto e foram ludibriados? Como reconstruir a esperança nos jovens, eles que foram tão agredidos e frustrados na sua fé? Confiaram e confiaram muito numa canoa furada. Depois do naufrágio, não é fácil embarcar outra vez. E se não houver embarque, não há travessia e, sem travessia, não se chega lá. Aqui, está o nó da questão. Vai ser muito difícil reconstruir a esperança, coisa absolutamente indispensável à realização de qualquer obra edificante.
    O PT não tinha o direito de fazer isto com o povo brasileiro. Foi exitoso na ortodoxia neoliberal da globalização econômica, o que é bom para o grande capital internacional e ruim para o Brasil, e foi desastroso e corrupto no restante. As políticas compensatórias são insignificantes diante da “maracutaia” geral. É como diz o homem simples: “esta roubalheira é muita carga pro meu caminhão”.
    Realmente, este País é bom, mas é muito difícil.