COM “P” MAIÚSCULO
    O Homem é um ser essencialmente político. Esta idéia matriz vem da Grécia, nasceu nas especulações de Aristóteles. Há volumes incontáveis de publicações sobre o tema, na história que vem desde antes de nossa Era.
    Agora, bem recente, contemporâneo nosso, o pensador francês André-Comte Sponville, em “Apresentação da Filosofia”, especulando sobre Política, assinala: “A política, como o mar, não pára de recomeçar. Porque ela é um combate, é a única paz possível. É o contrário da guerra, repetimos, o que fala o bastante da sua grandeza. É o contrário do estado natural, e isso fala bastante da sua necessidade. Quem gostaria de viver inteiramente só? Quem gostaria de viver contra todos os outros?” E, para distinguir a política da moral, indaga mais uma vez: “O que a moral propõe contra o desemprego, contra a guerra, contra a barbárie?” Todos podem se levantar contra esses males, mas cabe à política dizer como enfrentá-los.
    Por muito oportuno, sigo um pouco mais com Sponville: “Não fazer política é renunciar a uma parte do seu poder, o que é sempre perigoso, mas também a uma parte das suas responsabilidades, o que é sempre condenável. O apoliticismo é ao mesmo tempo um erro e uma culpa: é ir contra seus interesses e seus deveres". E, ainda, sentencia enfaticamente: “Não conseguiremos reabilitar a política, como é urgente hoje em dia, cuspindo perpetuamente em quem faz política”.
    É óbvio que temos o dever de distinguir os bons dos maus, condenar os corruptos, eliminar os viciados. Todavia, é imperioso não generalizar, nem tampouco, em momentos difíceis como o que vivemos, concluir, apressadamente, que todos são igualmente irresponsáveis. A generalização aqui não permite que se encontrem flores entre os espinhos, nem a vitória-régia no pântano apodrecido.
    Essas considerações iniciais nos conduzem para a abordagem do assunto que nos motiva para esta escrita. Trata-se de desmistificar a falácia de certa corrente de pensamento que coloca a economia como centro e fonte das ações políticas. O dualismo de causa e efeito entre política e economia. Afinal, qual é causa e qual é efeito?
    Parece-nos totalmente descabida a indagação, não passa de uma falácia. É, lamentavelmente, muito comum se ouvir que a área econômica do governo vai bem, porque é independente, como se essa independência não fosse uma decisão política. A opção por uma política econômica ortodoxa neoliberal na economia é uma opção política de governo, ou não é? A contradição dos defensores da primazia econômica é expressa em todas as manifestações, quando ao reproduzirem a falácia, concluem sempre com a expressão “decisão política do Chefe do Governo”, reafirmando que não mexerá na economia. Só essa ação política tranqüiliza o mercado. A economia é independente porque o Governo, politicamente, assim o quer.
    Ainda aqui, socorro-me do pensador francês já explorado: “E quem pode acreditar que a economia e o livre jogo do mercado bastam para tanto? O mercado só vale para as mercadorias. Ora, o mundo não é uma. Ora, a justiça não é uma. Que loucura seria confiar ao mercado o que não é para se comercializar!”.
    O que, também, é necessário e urgente, é distinguir a Política, no sentido republicano, daquela prática espúria que Ruy Barbosa chamava de politicagem ou politicalha.
    Os homens de bem precisam meditar muito sobre este tema. Urge que se busque fazer POLÍTICA.