Lula na França
    É lamentável e prova como a oposição - PSDB e PFL – e mais alguns oposicionistas pessoais estão empenhados na desestabilização do Governo, a ilação que desejam fazer da entrevista do Presidente na França com os depoimentos e com a versão que os principais envolvidos com a corrupção e os desmandos do PT apresentaram na Procuradoria da República.
    Quem acompanha com serenidade e isenção o desenrolar dos fatos, constata que Lula falou, com equilíbrio e tranqüilidade, o óbvio naquela entrevista. Não podia dizer outra coisa. Tinha notícia naturalmente do envolvimento do PT nos tristes episódios. Disse que o PT tinha o dever de esclarecer à Nação, e que todas as apurações precisavam apresentar resultados. Jamais afirmou que as irregularidades deveriam se limitar a crimes eleitorais. Não defendeu qualquer ato criminoso que viesse a ser descoberto. Seu pronunciamento foi sóbrio e ponderado. Nem condenar acusados, nem absolver culpados. Aguardar apurações sérias e conseqüentes.
    A oposição faz um esforço sobre humano para envolver o Presidente. Demonstra, com isso, pouco compromisso com a República, muito despreparo intelectual, má fé da maioria e muita ingenuidade de alguns poucos.
    Quando vejo pela TV S.Exa. o ilustre senador, com aquela voz empostada, cabelos implantados, reacionarismo histórico, metido a “bom de sela”, que por oportunismo começou no meu MDB - pois deveria, pelas suas poucas idéias, estar, então, na ARENA - a titulo de questionar o depoente, sem perguntar coisa alguma, fazer ilações absurdas e de manifesta má fé, recolho-me à minha tristeza com os destinos da República. O Senador é apenas um bom símbolo de tantos outros neoliberais da burguesia dominante, que não se resignam com a situação de oposição democrática, e querem, a qualquer custo, por quais meios forem, voltar ao poder, para exibir sua incrível capacidade de prática de falcatruas sem se permitir qualquer apuração séria e conseqüente. Sabem, com maestria invulgar, trabalhar com o Poder bem dentro da doutrina de Maquiavel.
    A grande cobertura da imprensa, principalmente transmissão ao vivo pela TV, está transformando a CPMI em palanque eleitoral, ou em júri do Governo. A apuração de irregularidades ou crimes passou a ser coisa desprezível. Os parlamentares, salvo meia dúzia, não querem ou não sabem proceder o interrogatório. Muitos astutos e verborrágicos, sem qualquer sabedoria para aquela finalidade, fazem discursos de palanque eleitoral. Para esses, a campanha pelo horário gratuito na TV começou mais cedo. As reuniões da CPMI se transformaram numa fogueira das vaidades.
    Todavia, também na outra face da moeda, poucos se salvam. A imensa maioria “aproveita” a TV e a cobertura da imprensa para derramar a discurseira. Faz a defesa do atual governo e procura, a qualquer custo, envolver governos anteriores nos casos de irregularidade e corrupção. Buscam afastar o Presidente da República destes lamentáveis fatos, mas o fazem de forma simplória e pouco crível. Negar a participação de S. Exa. é verossímil; contudo, negar que ele tivesse conhecimento de tudo, não o é. Dizer que ele não agiu com dolo, possivelmente até mesmo com qualquer tipo de culpa, é perfeitamente razoável. Defender sua boa fé é o que nos demonstra sua postura e os fatos conhecidos. Entretanto, as pessoas totalmente envolvidas são de tal forma das relações íntimas do Presidente que impedem a conclusão de que ele não tivesse qualquer notícia daqueles fatos. O que é provável e razoavelmente ocorreu foi o Presidente não ter acreditado nas “maluquices” que ouvia. Os de boa fé, os honestos, têm dificuldade de admitir que os outros, principalmente tão próximos, façam o que eles não fazem. É preciso se ter humildade e formação moral segura para se convencer desta realidade. Julgar os outros por si é uma verdade filosófica. As pessoas sempre pensam que o outro faz o que elas fariam, se estivessem no seu lugar. Afinal, a figura mitológica de Narciso é mais real do que utopia, como demonstra a estória daquele que, solicitado a dar um exemplo do cúmulo do egocentrismo, respondeu: é alguém que acha que é melhor que eu.